Nós
somos apenas incubadoras de bebês?
Uma
das séries mais aclamadas atualmente na cultura pop chega ao fim: a cômica, The
Big Bang Theory. Depois de 12 temporadas, aprendendo a amar o excêntrico
Sheldon, o grande amigo Leonard, o estranho Howard, o romântico Rajesh e a bela
Penny, esta semana fomos obrigados a dar adeus a uma série diferente, leve e
engraçada.
A
série desde o seu início se propôs a entregar algo diferente para o público. Durante
seus anos de exibição ela tentou fugir dos roteiros padrões de comédia e
entregar algo novo, focado na vida de um grupo que até então ninguém gostava de
ver: nerds! Com suas piadinhas sarcásticas
e inteligentes fomos conduzidos numa história com personagens centrais que,
certamente, na vida real não seriam tão amados assim. Afinal – a geração Y se
lembrará – no início dos anos 2000 ser taxado de nerd não era nada descolado como é hoje.
Inicialmente
nós fomos apresentados a 5 personagens principais: Sheldon, Leonard, Howard,
Rajesh (Raj) e Penny. Resumidamente, Sheldon é um doutor em física teórica, antipático e excêntrico; Leonard – seu melhor amigo – é o cara legal e paciente
(doutor em física experimental), Howard é engenheiro – depois astronauta – com
um péssimo histórico com mulheres (por vezes sendo até obsessivo), Raj é um doutor indiano
em astronomia, além de ser um personagem fofo e romântico, e a Penny, nova vizinha de Sheldon e Leonard, é uma
garçonete que sai do Texas para tentar a carreira de atriz em Pasadena,
Califórnia, mas acaba trabalhando na lanchonete Cheesecake Factory.
A
história é ótima quanto a acompanhar a evolução pessoal dos personagens no
decorrer dos anos. Vemos a evolução do Raj em se comunicar com o sexo feminino,
Howard se torna menos desagradável com mulheres e até constitui uma família
linda, Sheldon se torna menos ranzinza e consegue se tornar mais alguém mais
amável – chegando a casar-se – e Leonard e Penny constroem um relacionamento
sólido e bacana, baseado no reconhecimento de suas diferenças e de seus pontos
fracos. Tudo isso contado de forma simples e leve em episódios de pouco mais de
20 minutos.
Depois
de algumas temporadas, são introduzidas novas personagens de destaque: Amy F. Fowler
e Bernadeth, esta uma outra garçonete do Cheesecake Factory, que depois
conseguirá seu sonhado doutorado em microbiologia, e aquela uma doutora em
neurobiologia, tão excêntrica quanto o Dr. Sheldon Cooper. Bernadeth será a
futura esposa de Howard e Amy será a futura companheira de Sheldon, tanto como
esposa, como co-autora da tese que os leva a ganhar o Prêmio Nobel em física.
Apesar
de ser uma ótima série, não só do ponto de vista televisivo-comercial, e fazer
uma adaptação das personagens femininas muito bacana – mostrando mulheres
inteligentes, fortes, autônomas e de bem com sua sexualidade –, precisamos repensar
a trajetória da personagem Penny.
Penny
era inicialmente apenas o velho estereótipo: a loira bonita que sai do interior
e vai para uma metrópole a fim de viver o sonho de ser atriz. Até aqui nenhuma
novidade! Contudo, no decorrer da série vemos seu amadurecimento como pessoa,
sobretudo, na sua condição de mulher. Acompanhamos com certa tristeza, mas não
espanto, o abandono do sonho de adolescente e sua escolha por uma vida estável
e menos glamorosa. Isso engolimos fácil. Afinal, crescer é, muitas vezes
(infelizmente!), trocar os sonhos de criança por algo mais rentável e confortável.
Temos ainda seu amadurecimento no campo amoroso: a jovem bonita que antes só se
relacionava com bonitões do tipo mala-sem-alça resolve dar uma chance para
alguém diferente, um nerd não tão
atraente e com pouca confiança em si. E justamente nele mora sua felicidade! Um
enredo fofo, engraçado e compreensível – afinal, estamos falando de uma série
que precisa além de tudo ser assistida e comprada pelo máximo de público
possível.
O
relacionamento Penny&Leonard é “aceitável” do ponto da “problematização” dos
relacionamentos heterossexuais, se pensarmos o quanto o casal cresce junto, apesar do Leonard ser um cara inseguro e muitas vezes a Penny ter que ser sua
terapeuta sexual, isso infelizmente é práxis em muitos relacionamentos, e
apesar dos pesares pode ser um tijolo importante na construção de um relacionamento
feliz e duradouro. É compreensível que Penny depois de se relacionar com tantos
babacas resolva apostar em alguém novo e diferente, afinal, as tentativas
anteriores com as “mesmas figurinhas” não foram muito positivas a longo prazo e
nenhuma mulher deve estar com alguém que seja bacana só enquanto o efeito do
vinho não passa – o personagem Zac é bacana, mas ainda não é o tipo com quem
alguém quer viver para sempre.
Toda
a construção do casal é bem feita e tenta ser o mais próximo dos
relacionamentos reais: com brigas e conciliações, frustrações, inseguranças,
dúvidas e, sobretudo, diferenças. Temos o sonhado casamento e após ele outras
questões importantes aparecerão: o aprendizado cotidiano de amar as diferenças,
as expectativas, os planos para o futuro – tudo é mostrado de forma muito resumida
e engraçada –. É nesse ponto que os personagens tomam ciência de uma de suas
maiores diferenças: o desejo de ter filhos. Leonard sonha entusiasmadamente em
ser pai, enquanto Penny não se imagina, e nem deseja, ser mãe um dia. Conforme
os episódios vão passando, vemos o casal entrar em consenso e Leonard aceitar a
opinião da esposa. Claro que isso não acontecerá sem algumas brigas e tristeza.
Porém,
na última temporada, no último episódio, tudo muda! Somos informados que Penny
está grávida. Após ter saído com Sheldon e bebido, a jovem chegou em casa e
resolveu alongar a noite com seu marido, Leonard. Ora! Em plena series finale, onde todos os personagens
deveriam terminar “felizes para sempre” mostrando o ponto alto de suas vidas,
temos a personagem feminina de maior destaque em toda série acabar sua participação
como mãe. Claro, não esquecemos que Amy termina a série recebendo um
prêmio Nobel e fazendo um discurso sobre empoderamento e superação para jovens garotas,
mas o ponto central da discussão é sobre escolhas! Amy escolheu fazer uma
parceria com seu marido, o que os deu o Nobel, e Bernatedh escolheu ser mãe de dois filhos com Howard. Mas, Penny não escolheu a maternidade! Ela anteriormente
havia deixado claro o quanto ela amava crianças, porém não desejava ser mãe –
por motivos pessoais que não são citados na série, mas que, independente do que
sejam, devem ser respeitados – e terminar a série dando um “final feliz” para
ela enquanto mãe passa uma péssima mensagem às mulheres que acompanharam a
série até o fim.
Ao
terminar a participação de Penny resumindo seu “feliz para sempre” com a
notícia de uma gravidez é dizer às mulheres que suas vidas só são felizes e
completas depois da maternidade, é diminuir todas as suas outras conquistas e
sonhos em prol de teatralização angelical do que é ser mãe. Por que a
personagem não poderia acabar a série ganhando a oportunidade de estrelar um
comercial ou abrindo sua escola de teatro? Ou seja, por que ela não poderia ser
“feliz para sempre” fazendo algo que realmente fosse o sonho dela? A crítica
não é quanto se o sexo que deu vida a esse bebê foi consensual ou não ou se o
marido aproveitou que ela estava bêbada para “plantar sua sementinha”, mas sim
sobre finalizar uma personagem dizendo que mesmo que no passado ela tenha
deixado claro que não gostaria de ser mãe, ela apenas “não sabia ainda” o
quanto a maternidade é maravilhosa e engrandecedora – não que ela não seja (que
fique claro que não estou demonizando a maternidade).
Ainda
sobre escolhas é bom pontuar – para não ser uma crítica injusta – que antes
quando Penny deixou claro a Leonard que não desejava ser mãe, ele (Leonard) recebeu o
convite de Zac e sua esposa para ser o doador biológico de um futuro filho do casal,
já que Zac não poderia gerar filhos. Leonard sente-se muito honrado e feliz em
poder ajudar o casal, ainda que a criança não vá ser seu filho afetivo.
Contudo, a sua decisão é mudada depois do comportamento negativo de Penny em
aceitar sua decisão. Ora! A decisão cabia a ele precipuamente. Óbvio que,
enquanto casal, a opinião dela deveria ter algum peso, mas jamais deveria ser
determinante nessa escolha. E isso não fica muito claro depois que Leonard
desiste de doar seu sêmen.
Em
ambas situações temos uma imposição da vontade do outro, um desrespeito às
escolhas pessoais do parceiro, mas o caso Penny se mostra mais grosseiro, pois
além de claramente eleger os sonhos de um homem, ainda termina a série
passando a mensagem às mulheres que não desejam ter filhos de que elas só não
querem ser mães porque ainda não são, que depois da maternidade elas serão “felizes
para sempre”. Apesar de ter sido engraçada, fofa e nos mostrado mulheres plurais e fortes, cada uma a seu modo, The Big Bang Theory
poderia ter dado um final menos sexista e forçado à personagem Penny. Afinal,
por trás de toda uma narrativa de crescimento pessoal e profissional – não esqueçamos
que Penny passou de garçonete à chefe da equipe de vendas do medicamento desenvolvido
por Bernadeth – as mulheres só alcançam toda sua plenitude depois de uma
gravidez? Todos nossos esforços pessoais, nossas conquistas e aprendizado são unicamente
para que futuramente sejamos apenas incubadoras de bebês? Ainda que,
constantemente, sejamos levadas a crer nisso – de formas tão sutis as vezes –
somos muito mais do que isso! E se Penny não teve um final merecido, pelo
menos, tivemos a Dra. Amy F. Fowler no auge de sua carreira como cientista
ganhando um Nobel e dizendo às mulheres: Continuem lutando e acreditem em
vocês! Nós somos mulheres e podemos ser ótimas – e reconhecidas – em qualquer coisa
que nós quisermos fazer!

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